
Tenho tentado te encaixar em todas as músicas, em todas as letras de música, a gente, a nossa história, mas nem tenho conseguido. Só consigo naquelas que falam de amor, de silêncio, de solidão, saudade, saudade...

Pouco sei do que um conflito dessa magnitude significa. A priori, subestimei e balizei prazo de validade. Ledo engano. A vida já me surpreendera demais em momentos outros, quando eu achava que já a compreendia por completo. A estabilidade emocional torna-se algo incipiente que a melhor saída é entorpecer-se e utilizar-se disso como o mais bobo dos refúgios momentâneos. Certamente, deixar doer também é uma forma de fazer isso ter lugar, de fingir que nada acontece. Deixar doer tem significado interditar o que de ruim venho sentindo e perceber que meus olhos ainda brilham, que eu ainda fantasio, que só tem você no meu gramado verde, que você ainda se veste de branco.
Queria mesmo entender porque ainda dói. O meu conflito, quero crer, vem de toda essa fantasia, que deveria estar interdita. Você é uma palavra interdita. Você me magoou e foi embora, você. Você me pisa tacitamente nessa guerra fria diária. Você tem me surpreendido com sua nova forma de agir. Eu fecho os olhos, olho nos teus e já não te vejo e eu choro você. Você foi procurar você peças faltantes, enquanto eu fiquei juntando as que me restaram de você. Você tem sido o meu objeto de devaneios literários, onde eu me permito ser, onde eu não me interdito você. E, depois, eu me culpo você por não me sentir o ódio de antes, por olvidar os momentos de amargura extrema e você fazer-me recitar um poema tolo. Nem sei qual seria o seu sorriso de me ver ler e tremer você num poema. Nem sei como fazer você ver que eu li você-poema. Começo a sentir vergonha de fazer você bater, se eu nem sei se bato aí dentro. O amor é proibido e você nem sabe, você, por quê.

Tem me sido uma das dores mais estranhas deitar a cabeça no travesseiro, antes de estar entregue ao sono, e me perguntar por que você me devastou. A ligeireza das imagens me faz conseguir pensar em tudo despropositadamente. Descomedidamente. Eu me via quebrando as formas do sono com a ideia de movimento, rápido e contínuo; eu não dormiria. Não dormiria por dez minutos, após um cansativo dia, tempo esse reservado para agrupar, para fazer tudo voltar à mente e me questionar, sentir a usual dor da cabeça ao travesseiro, rompendo por sobre a beleza de um monte que parecia inquebrantável. Pesado e sofrido. Carinhoso e rude. Afável e voraz. Sensato e insensato.
Entre nós dois anda o mundo, tristinho, esperando por mais uma ironia, de te colocar na minha frente, descomedidamente. Arregalo as pupilas e já nem faço ideia de qual de nós dois anda morto, as mentiras trazidas de pessoas em sofrimento. A hora que ando à toa é quando a cabeça está lá ao travesseiro, desarmado e o coração esboroado; no fundo do poço, ódio e inércia. É como se eu precisasse zerar os pensamentos do dia pra conseguir dormir tranquilo, então fico, por minutos, pensando naquela dor, deixando ela me machucar um pouco mais. Mal tão necessário para uma noite de sono minimamente honesta. É, justamente, naquela hora que ninguém me diz para abstrair, ninguém me aconselha, muito menos segura minha mão. Sou eu ali, lembrando de você, comigo mesmo, memórias frescas permeando uma dor profunda, sentido o gosto das palavras pelo sabor que te dera. Elas não foram amargas só pra você, é tudo que tenho. Eu que seguro a sua mão agora, ora aperto, ora afago.
Quando fecho os olhos, penso no teu rosto, me repito o não mais tantas vezes, mas tenho visto tanta coisa. Agora eu fecho os olhos de saudade, as minhas palavras em riste arrefecem, o meu coração saltita, eu vejo coisas brancas, grama verde. Eu me permito os sonhos claros que invento. O contentamento tem se perdido dentro de mim, é tudo que me permito dizer agora. Sei que o travesseiro encerra algo indescritivelmente permissivo. Ele me permite ser tão bobinho. Eu posso, lá, confessar o meu jeitinho, entregar a alma e deixar os olhos. Quando eu bloqueio essa permissão, me vem a agonia. O sono vem se arrastando pelo chão, a maturidade e a dor vem correndo pra me tirar de lá e mostrar o que realmente é. Consentimento. Eu queria mesmo poder cortar suas asas, te fazer caminhar pelo mesmo caminho que venho andado perdido. Perdido que só eu. Que só. O que eu mais queria era encostar minha testa no teu ombro e deixar as lágrimas caírem de novo. E eu só posso te pedir isso quando deito minha cabeça no travesseiro. Há lágrimas e gritos, e tudo tem mesmo que acabar?
Pequeno

Disseram-me e eu relutara em acreditar. Avisaram-me e eu debochara. Choraram-me e eu consolara, mesmo sem acreditar. E agora as lágrimas correm loucas, uma atrás da outra, sem a menor compaixão. Correm tentando expurgar o que vai me entorpecer por muito tempo. Sai aquele ar seco, aquele grito surdo, a aflição presa ao meio e as lágrimas, molhando, a pele sem vida alguma. Um retrato que eu não gostaria que ninguém jamais apreciasse, pintado de dor e arrependimento por, um dia, ter conseguido diminuir tal sentimento de um ser que sofria. E a vida me ensinava.
Pois eu gostaria de aprender sozinho, então, agora mesmo, sem que ninguém debochasse da minha dor, sem nenhum ombro. Não queria que ninguém a aumentasse ou o contrário. Deixe-me senti-la como ela se apresenta. Assim, fresca, recente e pungente.
Paro por alguns momentos só para vê-la apertar o peito, fazer doer a cabeça, roer o estômago, secar a boca, avermelhar o nariz e molhar os olhos. Toda a compaixão que um dia neguei veio-me agora completa, ao contrário das lágrimas, a parte de mim impassível, que só caíam, sujavam meus óculos e turvavam-me a vista. Confesso que elas estão bem mais contidas que muitas que já vi, e não foram poucas. Mas elas têm o seu sabor, o seu sabor. O sabor do acúmulo, da inexperiência, do sal. E elas vêm. Muitas, muitas, muitas. Molhando, molhando, molhando. Turvando até o ponto de eu não conseguir escrever.

Eu queria ser a pessoa mais amada do mundo. Eu queria ter sempre carinho e atenção, mas sem perder o mistério. Eu queria dar afeto e cuidar, mas sem parecer bobo, sem parecer exagerado, sendo esse apenas meu jeito. O meu jeito de cuidar, de acarinhar, de exagerar, sendo gostar um passar dos limites.
Eu queria deparar-me com um grande gramado verde, após ter saído de uma cachoeira secreta e piegas, onde ninguém sabia que havia uma passagem, uma forma de me transportar para o que eu acho que é ideal, que é essencial. Caminhar bem devagar, a passos bem curtos e preguiçosos, sem me molhar, pois sou sensível e intocável. Chego ao gramado verde, consegui o que eu queria. Percebo que estou todo em branco, de vestimentas brancas, sem nem perceber o que branco significa. Eu não consigo ver nada ao longe, apesar do esforço, talvez eu seja míope.
Toda vez que quero sentir-me amado, acarinhado, cuidado e exagerado, eu vou lá, lá nesse gramado verde, caminhar de branco, mesmo sem saber o que branco significa, e olhar para bem longe, bem longe, e iludir-me, pois não há conforto psicológico maior que a ilusão proporcionada pela miopia.

