quinta-feira, 21 de maio de 2009

Fazendo fotossíntese.


Mimosa pudica é uma espécie de planta que suas folhas, ao receberem um toque ou qualquer estímulo sensitivo, fecham-se, segundos após serem tocadas. Era assim que Júlia estava sentindo-se. Meio mimosa, meio pudica. Ela estava em busca da verdade exata, da manifestação concreta dos elementos da realidade, visando a uma fidelidade na apreensão das peripécias do cotidiano. As peripécias do cotidiano são os fatos que ela não consegue encarar com naturalidade.
Tudo começa bem, mas parece que, com o tempo, Júlia vai desarmando-se e é esse o momento pelo qual as pessoas esperam. Ela não sabe por qual motivo tem a impressão de que é sempre o mesmo jogo. Vence quem souber jogar melhor, com um pouco de sorte também. Talvez porque realmente seja a mesma coisa, só mudando as personagens. Mas será que as falas de Júlia não são de alguém que não está conseguindo o que quer e procura uma desculpa para sanar a dor momentânea?
Eu sei que as histórias de Júlia entrelaçam-se umas nas outras. Ela vai se fechando, como a planta. O medo de ficar amargurada aumenta. São nesses momentos que todas aquelas perguntas angustiantes permeiam sua cabeça: "será que daqui a 10 anos ainda vou estar sozinha?"; "será que vou ter alguém para dividir um apartamento e as contas?". Júlia conscientizou-se que isso não deve ser primeiro plano em sua vida, que não se deve superestimar a vida sentimental. O difícil é conseguir realizar. A teoria ela já sabe de trás para frente. Dar um passo, mas não caminhar sozinha. Contar um parágrafo, mas não concluir a redação, quiçá um livro. Ligar, mas não lotar a caixa de mensagem. Mandar mensagem, mas não tornar isso esperado. Dar a certeza do acho. E não esquecer da sábia frase: "ele tem certeza que não vou traí-lo, mas nunca pode duvidar disso." Ela sabe de tudo isso. Essas teorias são todas bonitas, tudo se repete, mas emoções são todas subjetivas. Não podemos fabricá-las, elas simplesmente acontecem. É por isso que, quando lidamos com emoções, esses comandos tornam-se difíceis de serem postos em prática.
O que a deixa mais angustiada é o fato de apenas isso atrapalhar todas as outras ações em curso na sua vida. A falta de concentração a faz ficar ainda mais angustiada, com aquele aperto no peito típico de quem está passando por um momento difícil. É triste olhar para Júlia e ver que ela não pode expressar seus sentimentos de uma forma aberta. Era só isso que ela queria. Nem com os amigos ela pode fazer isso. Mais angustiante é sentir-se sozinha.
Mas ela já sabe: liga uma vez, não atendeu, não ligue mais; diz que vai ligar e não liga? não ligue atrás; marca um horário de encontro e não aparece, tudo bem, você fez o que estava ao seu alcance; sem cobranças, você não tem nada de concreto; sem indiretas, você tem de se prender ao status que te é impelido: é amigo, trate como amigo, é ficante, trate como ficante; você não vai poder mais tomar nenhuma iniciativa, pois não depende de você.
O difícil é conscientizar-se disso tudo e colocar em prática. Sabe o pior disso tudo? É que, quando Júlia conseguir fazer isso, o sentimento já acabou.