sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sem saber o que branco significa.


Eu queria ser a pessoa mais amada do mundo. Eu queria ter sempre carinho e atenção, mas sem perder o mistério. Eu queria dar afeto e cuidar, mas sem parecer bobo, sem parecer exagerado, sendo esse apenas meu jeito. O meu jeito de cuidar, de acarinhar, de exagerar, sendo gostar um passar dos limites.

Eu queria deparar-me com um grande gramado verde, após ter saído de uma cachoeira secreta e piegas, onde ninguém sabia que havia uma passagem, uma forma de me transportar para o que eu acho que é ideal, que é essencial. Caminhar bem devagar, a passos bem curtos e preguiçosos, sem me molhar, pois sou sensível e intocável. Chego ao gramado verde, consegui o que eu queria. Percebo que estou todo em branco, de vestimentas brancas, sem nem perceber o que branco significa. Eu não consigo ver nada ao longe, apesar do esforço, talvez eu seja míope.

Toda vez que quero sentir-me amado, acarinhado, cuidado e exagerado, eu vou lá, lá nesse gramado verde, caminhar de branco, mesmo sem saber o que branco significa, e olhar para bem longe, bem longe, e iludir-me, pois não há conforto psicológico maior que a ilusão proporcionada pela miopia.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Quem perde o tempo, eterna perda chora.




Ah! Que maravilha é o tempo! Mais maravilhoso que o tempo é estar sujeito às mudanças na substância do ser ou às mudanças acidentais e sucessivas da sua natureza, sendo, à vista disso, apreciadas, tacitamente, pelos sentidos orgânicos. Mas a determinação desse acontecimento ocorre em virtude de algo pontual, costumeiro não se dar importância.
Diz-se que, quando convivemos rotineiramente ao lado de algo, não percebemos, claramente, a mudança que este pode vir a apresentar. Talvez seja percebido quando se tem interesse em que essa mudança ocorra. Mau é aquele que não sabe valorizar o que se tem por perto; todos somos maus, porventura. Uma característica aterradora do ser humano é ser temporal.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A gravata do Di Caprio.



Eu quero hoje arriscar-me a dedilhar algo jamais tentado antes por mim.
Eu fui ao cinema ver "Ilha do Medo"(Shutter Island), com Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo(nos papéis de destaque), direção de Martin Scorcese. Depois do filme, após alguns comentários e discussões, vi que esse filme, ao menos, causa discordâncias.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=HYVrHkYoY80

"
No ano de 1954, os agentes federais Teddy Daniels e Chuck Aule investigam o desaparecimento de uma interna do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe. Ao viajarem para a ilha de Shutter - localizada em Massachusetts - para cuidar do caso, eles encontram uma rebelião de presos, devido a um furacão que se aproxima da ilha, e ficam impossibilitados de sair da ilha."

Então.. o filme tem mais de duas horas e meia. Ele não me fez pensar "acaba logo", mas eu acho que ele perde um poco do 'timing', nada que me faça querer sair do cinema imediatamente reclamando do quão o filme é prolixo. Não, nada disso! Apenas pontuo que algumas cenas poderiam ter sido encurtadas ou outras, mais irrelevantes, retiradas. Sabe o que me marcou bastante? A gravata do Teddy Daniels(Leonardo Di Caprio). Eu não consigo mensurar, sendo exagerado, o valor daquela gravata para o filme. Primeiramente, ela representa a perfeita caracterização do estilo 'film noir'. A estampa, a relação dele com a gravata, o fato de ele amar a gravata, mas, mesmo assim, achá-la feia. A estampa da gravata marca perfeitamente a década em que o filme está sendo representado. Achei, digamos, um detalhe brilhantemente destacável, tanto que, até hoje, utilizo a gravata como exemplo emblemático ao me referir ao filme. Fico tentando achar outra referência à época e canso. Canso. Não tem, digamos, exemplos de caracterização para leigos. Se você entender de luz, marcação do 'filme noir' no chapéu do Di Caprio, ou reparar na roupa da enfermeira da década de 50, meus parabéns, pois eu estava mais preocupado com os diálogos. Não leia nada antes de ver o filme, não ouça nada, simplesmente vá vê-lo. Só perceberá que se situa na década de 50 pela fala de Di Caprio ou se você for especialista em gravatas, como eu(brincadeira). Agora, a hostilidade e o cinismo foram pungentemente ressaltados e bem caracterizados na chegada dos agentes federais à ilha.

É impressionante como todas as atenções foram voltadas para Di Caprio. Bem, ele não decepcionou. Ele me surpreendeu. Eu só consigo lembrar dele no Titanic e OLHE LÁ! Mas, depois dessa atuação, lembrarei com carinho. Ruffalo, que eu sempre gosto do que ele faz, estava bem, só bem. Também, coitado, não tinha como aparecer mais. Ao menos, ele não estragou cenas como a maldita pseudo-amélie-poulin que decidiram colocar para contracenar com Di Caprio. Tal criatura forjava Rachel Solando, uma possível fugitiva, e, simplesmente, parecia ter feito teatro na 'companhia de novos atores colírio japonês', dirigida pela Nana Gouvêa, aquela atriz, sabe? Pois é. Ela tinha uma partinha na testa que me lembrava a Amélie de um jeito ruim. Ok, ela parecia sim uma louca(pelo menos nisso ela acertou), mas ela não passou nenhuma emoção, não entrou no clima, diferente do Leonardo Di Caprio, que fez uma das suas melhores cenas. E olha que a cena tinha diálogos ótimos! Pra mim, merece destaque a enfermeira que responde às perguntas do detetive Teddy de uma forma bem sarcástica e a doente mental que escreve "RUN". Muito boas!

Dia desses, eu tava vendo o trailer de "Ilha do Medo" e vi que era propaganda enganosa. HAHA. Venderam a imagem de um filme de terror, enquanto as cenas de susto se contam nos dedos de uma mão. A trilha sonora compensa a falta de suspense nas cenas. Achei meio injusto. Se você está procurando um filme de terror, nem gaste seu dinheiro. Espera chegar em DVD, coloca o filme tipo 00:00h que dá tudo certo! O final? Polêmico, né? Eu acho, porque ninguém esperava um final tão óbvio. Ficamos até o último minuto torcendo, com os dedos roxos do sangue preso, para que não acabe da forma que a gente sabia desde os 50min de filme(o filme tem mais de duas horas e meia). Resolução final: eu gostei. Nada mais que isso. Não sei se Scorcese seguiu o livro fielmente(será que o final é do livro? HAHAHAHA), mas acho que ele acertou. Shutter em inglês é veneziana ou obturador, bem.. Shutter Island, Ilha do Obturador, então, bem, pode ser o aparelho que eles usam no cérebro dos pacientes, né? Tá, parei.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Estica e puxa.


Um neologismo inventado, um elo de ligação, um monopólio exclusivo, um ganhar grátis, um já não há mais, uma viúva do falecido, um entrar para dentro, uma redundância tautológica. A Terra é redonda e o mundo dá voltas, se a Terra fosse quadrada, o que o mundo faria? Rodar é andar e voltar ao ponto de partida. Eu torço, certas horas, para que a Terra fique quadrada. Não sei...rodar e vir ao mesmo ponto já me cansou. Se a Terra fosse quadrada, eu andaria em linha reta, tudo estaria ameno, calmo, harmônico e, de repente, viraria bruscamente, mas logo voltaria à calmaria. Teria um período de amenidades, mas, ao menos, haveria uma mudança abrupta que me daria um ânimo para me fazer aguentar a linha reta da Terra quadrada.
Todo mundo pede paz.. "Quero paz na minha vida, não consigo suportar essas intempestividades!". Mas quem já ouviu: "Meu namoro está tão morno, nada acontece, é o mesmo de sempre, muita rotina, não tem aquela coisa que me balance e me faça ver se é aquilo mesmo que eu quero." Então, a única conclusão a que podemos chegar é que o ser humano é redondamente insatisfeito. Ele mesmo vive em círculos, intercalando a satisfação com a insatisfação, ou seja, ele está insatisfeito e, ao chegar à satisfação, ele quer tornar-se insatisfeito novamente para buscar a satisfação. Dessa forma, ele garante sempre o prazer que a satisfação gera.
De fato, o humano gosta é de prazer. Mas quem disse que a tranquilidade não gera prazer? Somos nós quem condicionamos o prazer. Se isso me gera prazer, é porquê eu gosto disso. Se eu gosto de situações complicadas, só isso me dará o prazer e a satisfação que necessito.
Talvez os nossos estágios de descontentamento sirvam para nos fazer tentar mudar e, assim, evoluir. Mas quem disse que precisamos evoluir, se, depois, ficaremos insatisfeitos com a nossa própria evolução?