
Disseram-me e eu relutara em acreditar. Avisaram-me e eu debochara. Choraram-me e eu consolara, mesmo sem acreditar. E agora as lágrimas correm loucas, uma atrás da outra, sem a menor compaixão. Correm tentando expurgar o que vai me entorpecer por muito tempo. Sai aquele ar seco, aquele grito surdo, a aflição presa ao meio e as lágrimas, molhando, a pele sem vida alguma. Um retrato que eu não gostaria que ninguém jamais apreciasse, pintado de dor e arrependimento por, um dia, ter conseguido diminuir tal sentimento de um ser que sofria. E a vida me ensinava.
Pois eu gostaria de aprender sozinho, então, agora mesmo, sem que ninguém debochasse da minha dor, sem nenhum ombro. Não queria que ninguém a aumentasse ou o contrário. Deixe-me senti-la como ela se apresenta. Assim, fresca, recente e pungente.
Paro por alguns momentos só para vê-la apertar o peito, fazer doer a cabeça, roer o estômago, secar a boca, avermelhar o nariz e molhar os olhos. Toda a compaixão que um dia neguei veio-me agora completa, ao contrário das lágrimas, a parte de mim impassível, que só caíam, sujavam meus óculos e turvavam-me a vista. Confesso que elas estão bem mais contidas que muitas que já vi, e não foram poucas. Mas elas têm o seu sabor, o seu sabor. O sabor do acúmulo, da inexperiência, do sal. E elas vêm. Muitas, muitas, muitas. Molhando, molhando, molhando. Turvando até o ponto de eu não conseguir escrever.