terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cartas, búzios e tarot.


Sabe quando você é seu próprio cartomante? Era assim que Davi sentia-se. Ele sabia tudo que ia acontecer no futuro dele. Mas será que ele estava realmente certo? Bem, pensara ele que sim.
Se Davi tirava uma nota baixa, ele sabia que, próxima etapa, ele estudaria mais e o bom resultado apareceria.
Se Davi brigava com sua mãe, ele sabia que, em dois dias, as pazes seriam feitas.
Se Davi viciava em uma música, ele sabia que, em duas semanas, apareceria outra e ele passaria a ouvi-la.
Se Davi estava a fim de alguém, ele não se angustiava, porque, logo, apareceria outro alguém.
Mas e se Davi se apaixonasse?
Bem, ele jogaria as cartas do tarot na gaveta e sentaria, esperando o destino colocar as cartas para ele.
Dizem que o destino é um dos cartomantes mais mentirosos, o maior dos charlatões. Principalmente, quando você também põe cartas, pois você sempre acha que tem o controle do futuro. E Davi era um desses.
Mas quem disse que, quando você sabe o que vai acontecer, você tem o controle?
Saber o futuro não significa mudá-lo. Davi não sabia disso.
Saber o que vai acontecer ajuda você a não ter tantas surpresas, mas daí a mudar é bem diferente. Muito diferente. Quando se fala em sentimentos, tudo é diferente. Você sente algo hoje, mas não sabe se sentirá o mesmo amanhã, mais fraco ou mais forte.
E se acontecer algo inesperado? Se acontecer, Davi vai colocar as cartas novamente? Você colocaria as cartas novamente?
Toda vez que você ouvir uma palavra que não contava, um olhar que não era previsto, um cheiro inesperado, um gosto surpreendente, uma conversa que não estava programada você vai pôr as cartas?
Davi não sabia se queria as coisas totalmente programadas ou se queria programar e ter surpresas ou se queria tudo não-programado.
Será que o charlatão do destino avisaria a Davi que, por mais que ele soubesse o dia de amanhã, ele agiria de acordo com o que estava programado pelas cartas e não pelo que ele queria que acontecesse? Resumindo, Davi, quando sabia o dia de amanhã, fazia tudo igual, ou seja, para ele, não adiantava saber, porque os sentires dele eram mais fortes que qualquer parte racional do seu cérebro.
Mas ele adorava enganar-se. Achava que seria o dono da situação se pudesse, milimetricamente, descrevê-la.
Ele tem de saber que a vida deve ser como um filho que nasce ao contrário, que nasce para dentro, pois, cada vez mais, estaria perto do coração.
Davi tentava, com as cartas, enxugar suas próprias lágrimas. Tentava fazer o dia seguinte não magoá-lo, não surpreendê-lo negativamente.
Mas qual seria a graça?
De que adianta sentar em um gramado e observar as nuvens passarem se você verá a quantidade certa e a forma certa das nuvens que passam?
Bom mesmo é segurar uma flor e não saber quanto tempo ela vai demorar para cair da sua mão ou para murchar.
A flor pode conter espinhos? Pode. Mas quem garante que não virá alguém fazer um curativo?

3 comentários:

@maiarakrd disse...

Sempre aparece alguém pra fazer o curativo mesmo. E as vezes, aparece tão rápido, que você nem percebe que já sarou :O

mad_life disse...

renas, acho q de todos esse foi o q mais gostei. realmente me identifiquei, o texto conseguiu fluir de um modo que vc vai lendo, se envolvendo, nao percebendo que está passando e por fim acaba.

Anônimo disse...

Adorei o texto :)

Tenho de medo do desconhecido..