
Mimosa pudica é uma espécie de planta que suas folhas, ao receberem um toque ou qualquer estímulo sensitivo, fecham-se, segundos após serem tocadas. Era assim que Júlia estava sentindo-se. Meio mimosa, meio pudica. Ela estava em busca da verdade exata, da manifestação concreta dos elementos da realidade, visando a uma fidelidade na apreensão das peripécias do cotidiano. As peripécias do cotidiano são os fatos que ela não consegue encarar com naturalidade.
Tudo começa bem, mas parece que, com o tempo, Júlia vai desarmando-se e é esse o momento pelo qual as pessoas esperam. Ela não sabe por qual motivo tem a impressão de que é sempre o mesmo jogo. Vence quem souber jogar melhor, com um pouco de sorte também. Talvez porque realmente seja a mesma coisa, só mudando as personagens. Mas será que as falas de Júlia não são de alguém que não está conseguindo o que quer e procura uma desculpa para sanar a dor momentânea?
Eu sei que as histórias de Júlia entrelaçam-se umas nas outras. Ela vai se fechando, como a planta. O medo de ficar amargurada aumenta. São nesses momentos que todas aquelas perguntas angustiantes permeiam sua cabeça: "será que daqui a 10 anos ainda vou estar sozinha?"; "será que vou ter alguém para dividir um apartamento e as contas?". Júlia conscientizou-se que isso não deve ser primeiro plano em sua vida, que não se deve superestimar a vida sentimental. O difícil é conseguir realizar. A teoria ela já sabe de trás para frente. Dar um passo, mas não caminhar sozinha. Contar um parágrafo, mas não concluir a redação, quiçá um livro. Ligar, mas não lotar a caixa de mensagem. Mandar mensagem, mas não tornar isso esperado. Dar a certeza do acho. E não esquecer da sábia frase: "ele tem certeza que não vou traí-lo, mas nunca pode duvidar disso." Ela sabe de tudo isso. Essas teorias são todas bonitas, tudo se repete, mas emoções são todas subjetivas. Não podemos fabricá-las, elas simplesmente acontecem. É por isso que, quando lidamos com emoções, esses comandos tornam-se difíceis de serem postos em prática.
O que a deixa mais angustiada é o fato de apenas isso atrapalhar todas as outras ações em curso na sua vida. A falta de concentração a faz ficar ainda mais angustiada, com aquele aperto no peito típico de quem está passando por um momento difícil. É triste olhar para Júlia e ver que ela não pode expressar seus sentimentos de uma forma aberta. Era só isso que ela queria. Nem com os amigos ela pode fazer isso. Mais angustiante é sentir-se sozinha.
Mas ela já sabe: liga uma vez, não atendeu, não ligue mais; diz que vai ligar e não liga? não ligue atrás; marca um horário de encontro e não aparece, tudo bem, você fez o que estava ao seu alcance; sem cobranças, você não tem nada de concreto; sem indiretas, você tem de se prender ao status que te é impelido: é amigo, trate como amigo, é ficante, trate como ficante; você não vai poder mais tomar nenhuma iniciativa, pois não depende de você.
O difícil é conscientizar-se disso tudo e colocar em prática. Sabe o pior disso tudo? É que, quando Júlia conseguir fazer isso, o sentimento já acabou.
12 comentários:
"Dar a certeza do acho."
putz, é a melhor coisa que podemos fazer!
lindo texto...
ainda espero um dia em que a protagonista terá um lindo nome de Camila.
hauhuaihaiuhuia
Ótimo texto como sempre!
Mimosa pudica é mara!
abraço
kkkkkkk..."quando Júlia conseguir fazer isso, o sentimento já acabou." isso é verdade, e acho q é uma lei. quando sentimento existe tudo (mesmo q repetido) é novo.
huhu... QUEIJOS E ABRAÇOS
Eu adoro quando tu faz essas metáforas.. tipo a planta e a Júlia.
Muito bom mesmo!
Você escreve tão bem. Sou apaixonada por seus textos, sabe disso né?
Beijos!
Estou me sentindo meio "Júlia"...
ipisis literis
belo texto...
Anderson Brasil
Essa semana pensei justamente isso "Talvez porque realmente seja a mesma coisa, só mudando as personagens"
...
Adoreei!!
Como Maiara já escreveu, tbm adoro tuas metáforas :))
;****
"A teoria ela já sabe de trás para frente", talvez nunca precise usar realmente, pois quando usa ou eh pq já acabou, ou pq ainda está forte(nao envolvida) o suficiente.
"...feelings, nothing more than feelings..."
Ô Júlia, tsc tsc tsc!
"Para mim, estar apaixonada era como ir a China: sabia que existia, que sem dúvida devia ser muito interessante e que algumas pessoas iam até lá, mas eu nunca iria. Eu passaria toda a minha vida sem jamais ir à China, mas isso não teria importância porque havia o resto do mundo para visitar".
É o que se pode chamar de tolice. Mas seria hipocrisia minh achar isso, já que, assim como para Júlia, o resto do mundo não é o suficiente para mim.
ei...
legal, ó. E triste. Algo de despretensioso, sincero e fluido. E triste. Primeira vez q leio algo teu: até que ponto os textos falam de si?!
:p
Postar um comentário