segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Vó e o Copo


Tadinha, já nem sabia onde estava. Havia quase três anos que morava conosco. Nunca fora muito carinhosa, nem afável, nem cozinheira, era daquelas que compensava com bens materiais. Confesso que gostava, mas também nunca provara do outro lado da moeda. Não provar do outro lado da moeda pode ser um problema. Foi-nos um problema, e eu sabia desde o começo. Ela tinha uma daquelas doenças incuráveis, tipo o amor, sabe? Aquele que você vai ficar dependente pra sempre, até que apareça a cura. E parece estar nem perto. Aos que rodeiam, vai causando aquele misto de amor e ódio. Ódio por não sabermos como curar e por, em certos dias, simplesmente querermos que essa agonia desapareça. Amor... esse nem tem explicação. A palavra como signo já perdeu o seu efeito de mediadora e o que se pode fazer é deixar sentir ao bel prazer das brincadeiras da vida.
Cambaleante, batia-se contra os móveis, só apreensão em quem presenciava tal cena. Em uns dias, estava mais ferina, agressiva, não poderia ser contrariada. Uma tristeza só ver chinelos dentro da geladeira. Tristeza maior ainda era vê-la cambaleando. Eu, tão cambaleante quanto ela, não podia fazer nada. Passava por momentos difíceis. Corria para segurar quando achava que ía cair. Nessas horas, você vê o quanto você ama sua família, outrora chamada de base e suporte. Era difícil respeitar toda essa situação de silêncio, o hiato causado por tanto sofrimento. Mas é uma doença que a vida joga no nosso colo e grita “lide com isso”. O resto é talento. Perguntava a mesma coisa muitas vezes. Perguntava-se a mesma coisa mil vezes. Perguntava-me a mesma coisa milhões de vezes. Será que um dia isso vai passar? Continuava cambaleante, batendo nos móveis e ameaçando quebrar aquele velho cristal que você guarda em casa com todo o amor do mundo sem nem saber o motivo; a explicação fajuta é que ele faz parte da sua história, você não consegue admitir que tem um amor inexplicável por aquilo e usa o comodismo como desculpa.. e eu olhava pra ela, parecia bem, era aí que a raiva tomava tento. Como pode parecer tão bem se está doente? Logo em seguida, eu via que era assim mesmo, essa doença, altos e baixos. Eu confesso que senti pena. Uma pena boa, se é que isso pode acontecer. Pena de ela esquecer quem ela era de vez, quem eram as pessoas que realmente importavam. O pior deve ser esquecer-se, o que você é, o que você construiu. Ela estava se permitindo implícita e involuntariamente. Isso me doía tanto. Tadinha. Ouvir outros comentando o que ela fazia, as coisas estranhas que ela fazia, fruto da doença, me deixava tão doente quanto. Eu queria me convencer que perguntar mil vezes por alguém que já morreu é normal, que colocar chinelos na geladeira é normal, que terminar o banho e esquecer o chuveiro ligado é normal, que esquecer quem você amou é normal, que estar num mundo completamente novo fazendo o que você jamais pensou em fazer é normal, que fazer as pessoas ao seu redor sofrerem é normal, que beber do copo dos outros à noite é normal, que depois de tanto tempo ainda não ter esquecido tudo é normal. Escutar alguém dizer o que ela estava fazendo noite à fora era tão desnecessário. Só me fazia ter mais medo. Eu não queria ninguém falando dela, do que ela poderia se tornar, ela era ainda minha vovó, que eu amei durante um ano e nove meses. Não sei se foi só isso, mas é isso que eu consigo e devo contar. Eu queria tanto trazê-la de volta, curá-la, deitá-la no meu colo novamente, mesmo eu não sendo tão carinhoso e dizer que eu a amava, que ela não precisava passar por isso. Tirá-la daquela solidão do esquecimento.
Acordava no meio da noite e queria tomar banho, uns calores estranhos. E a minha missão de pessoa insone era segurar a mão levemente e conduzi-la de volta. A toalha já ía no ombro e o rosto assustado. Tomava um copo com água e dava pra enganar por mais algumas horas até que ela acordasse novamente. Eu já não sei se estaria ali acordado pra ajudar ou se já teria caído em sono profundo. Ela adorava beber água. Abria a geladeira incontáveis vezes ao dia. Tentava pegar um copo e cambaleava, ameaçando derrubar todos os outros. “Cuidado!”. Era só o que eu podia fazer: alertar.
Ela costumava me chamar e eu não dava atenção. Quem não cansa? Chamou-me por três vezes e eu disse não. O não faz parte de todo esse processo. Até que resolvi ceder. Ela havia me chamado para algo muito urgente. Conduziu-me pelo braço até o closet. “Eu preciso que você me ajude, que você me explique um negócio.”.
- Tá vendo? - perguntou-me com aquela voz mais que ansiosa, desesperada quase.
- O quê?
- Eu estou presa ali e não consigo sair. Olhe! Sou eu!
Quando dei por mim, meus olhos já íam cheios d’água. Ela ainda conseguia se reconhecer, mas tudo ao redor não fazia mais sentido. Aquelas nossas imagens projetadas naquele espelho e ela lá sem entender. Sem entender que eram apenas reflexos, reflexos da situação atual, de tudo que aquela doença fazia com ela. Ela sentia-se presa à ela e, tadinha, não sabia que tinha de sair daquilo. O reflexo da porta no espelho pareceu uma saída pra ela.
- Tá vendo? Ali tem até uma porta! E por que eu não consigo sair?
- Vó, isso é só um espelho. – Minha voz tinha mais desespero que a dela.
- Meu filho, pelo amor de Deus, me tire dali. Eu já fui e voltei e não consigo sair.
Eu era só angústia e medo. Segurei os braços dela e disse:
- Vó, calma! Eu tô aqui! – foi tudo que consegui.
Ela não lembrava o que um espelho significava. Mas isso bastou. Ela conseguiu se acalmar. Eu, não. Chorei por muitos meses, que pareceram eternidade. E a eternidade tem me acompanhado durante todo esse período. Talvez seja só o simples desejo de eternidade. Nesses momentos, eu sentia todo o meu amor por ela.
Certa vez havia me dado um copo. Não sei o motivo pelo qual ele se tornou o presente mais especial de todos. Acho que era justamente por isso. Por não ter explicação e eu não ter essa necessidade de resposta. Quem disse que não é possível amar um copo? Eu o amava e o protegia. E bebia daquela água sem medo algum (mentira, sempre há o medo intrínseco). Mas, de verdade, ninguém poderia sequer encostar. Até que, um dia, ela foi abrir a geladeira de novo. Ao acaso, estava eu próximo, nem sei fazendo o quê. Repetia que queria beber água. Talvez nem tivesse sede; acho que não lembrava que havia bebido minutos atrás. Estava arrumada para sair. Foi andando em direção à bandeja, e ele estava lá. Como se fosse apenas mais um no meio de outros, mas nem era. Destacava-se logo. Alto, bonito, diferente, cheio de arte, a boca grande. Lindo, lindo. Uma perna após a outra nem sempre é a melhor forma de andar, ainda mais quando se faz uso de uma bengala, um suporte, pode ser que tudo se confunda. Cambaleante. É tanto que tropeçou e bateu com tudo na bandeja. E eu o vi balançar, hesitar. Foi para um lado, foi para o outro, não sabia se caía ou não caía. E eu corri. Não mais que quatro passos. Ela quase cai dessa vez. Todos os outros caíram, e eu só consegui salvar ele. Só ele. E ele já estava quase caindo. Ela conseguiu segurar-se. E eu o abracei. “Vó, cuidado, a senhora quase quebra o meu copo!”. Eu abracei tão forte que quase o quebrei eu mesmo. Daí, decidi que nunca mais beberia nele. Guardei-o no fundo do meu guarda-roupa.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Eletrocardiograma


‎"Um dia eu segurei seu coração na mão. Não era ousadia, você quem pedira. Ousadia foi abri-lo, com medo da explicação pra tanta hesitação naquelas mãos trêmulas estar bem ali; eu abri o seu coração e nada tinha, graças à Deus. No meu, graças à Deus, nada tinha."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os Sobreviventes


E quando chega, chega de uma vez, não há quem segure. Aquele bolo de emoções entaladas bem no meio do peito, não necessariamente do lado esquerdo, fazendo o gosto da saliva mudar, a serenidade resvalar e o cheiro do ar penetrar as entranhas de uma forma completamente não convencional, como se o fôlego fosse acabar. Mas não se preocupe, eu posso até tomar uma medida drástica, não tão drástica quanto continuar, pois amor só sobrou, o amor soçobrou e não há nada mais autodestrutivo do que insistir sem fé nenhuma.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Uma Coisa Verdadeira e Sumarenta


Descobri que a dor pode ser algo excruciantemente bonito. Bonito de me fazer sentir bonito, partícipe de sentimentos antes não experenciados. Sempre tivera a necessidade de sentir a raiz firme das coisas, mas agora o que sobeja é dúvida. Dono duma felicidade insuportável que agora caminha a passos largos e já vai longe.. a dúvida, por ela só, faz-me sentir tolo, dono de sentimentos solitários, talvez não compartilhados, humanos e perecíveis, como todo o mundo, fatigado, clamando por uma só palavra capaz de matar, matar toda essa dúvida..

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Recordo-me Agora


Recordo-me agora de como aquela sensação me compensava. Eu já te avistava, puxando a blusa, sempre no mesmo local e as mãos inexplicavelmente trêmulas, para que ela descolasse do corpo, eu sabia bem, típico dos traumas da infância e adolescência, esteio de algo improvável em uma idade mais improvável ainda, era sempre duas puxadinhas, vindo em minha direção, o olhar neurótico em lugar algum. Um andar peculiar, meio cambaleante da vida, havia sofrido demais, engraçado e apressado, seu. Eu dava um sorrisinho só meu, de satisfação, que você nunca chegara a ver. Era o meu dia mais feliz da semana, cansado ou não, era quando as ligações teriam fim e, de fato, outro tipo de ligação se iniciaria; eu teria você comigo. Adentrava, batia a porta forte, como sempre, não me olhava muito. Lugar proibido de carinho, aquele. Parece que toda a nossa relação me passava frente aos olhos naquele seu caminhar em minha direção eu lembrava de todos os seus problemas os nossos seus do quão difícil foi sua vida e você não fazia ideia de que eu tentava entender aquilo converter-me e moldar-me e do medo que me dava por você ter sido tão forte e ter sido tão marcado e eu regozijava por você estar traindo você mesmo ao me amar disso eu nunca tive dúvidas sentado com uma amiga noutro dia comentei da intensidade disso e de como nunca havia faltado durante todo o tempo juntos faltado não mas sobrado sempre transbordado de um jeito ou de outro; amor nunca havia faltado. Colocava a mão esquerda no meu joelho direito, balançava-o levemente, dava aquele apaixonante gritinho solavancado e, logo então, vinha a fatídica pergunta. Você nunca soube do meu caso de amor e ódio com essa pergunta. Em dias, rezava para que você não a fizesse, achava chata, repetitiva. Em outros, ela era você, ela era o seu território, era você avisando que chegou, mais uma vez. As peripécias do cotidiano faziam-me não ser tão regular quanto a sua pergunta já reificada. “E aí, tudo bem com você?”! Ela era invariável. Às vezes, vinha acompanhada de um vocativo, muitos, só você soube me dar os melhores vocativos; os amava tanto que ouvir meu nome sair da sua boca me doía. Eles tornaram-se tão preclaros que os nossos passaram a esquecer nossos nomes comuns e a fazerem uso deles quando queriam nossa atenção. Que prazer isso me dava! Dava-me um beijo no ombro, puxava minha mão, encaixe perfeito do grande e do pequeno, a beijava também, me dando aquela lição de como ser carinhoso de verdade. Só então você colocava o cinto. E você nem imaginava que o seu metodismo um dia me marcaria, direcionamento de todo o sofrimento de uma vida, que chegou a nos fazer discutir tanto, amiúde, eu não conseguia entender que era você tentando apagar as marcas dos períodos difíceis. Comum era estar tocando aquela música, propositadamente, que virou nossa, daquele meu CD repetitivo, da minha banda preferida, sempre ele. Você a reconhecia e já começava a reger, com a mão direita, na melodia perfeita de quem entendia de ritmo, de quem sabia, de verdade, sentir as nuanças de uma música. E a gente cantava junto. Suficiente para chegarmos à esquina.

Muitas perguntas precisam ainda ser feitas.. [continua]

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pobre esperança a de existir somente, antes que tudo em tudo se transforme.


Tenho tentado te encaixar em todas as músicas, em todas as letras de música, a gente, a nossa história, mas nem tenho conseguido. Só consigo naquelas que falam de amor, de silêncio, de solidão, saudade, saudade...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do que sei do mosaico


Pouco sei do que um conflito dessa magnitude significa. A priori, subestimei e balizei prazo de validade. Ledo engano. A vida já me surpreendera demais em momentos outros, quando eu achava que já a compreendia por completo. A estabilidade emocional torna-se algo incipiente que a melhor saída é entorpecer-se e utilizar-se disso como o mais bobo dos refúgios momentâneos. Certamente, deixar doer também é uma forma de fazer isso ter lugar, de fingir que nada acontece. Deixar doer tem significado interditar o que de ruim venho sentindo e perceber que meus olhos ainda brilham, que eu ainda fantasio, que só tem você no meu gramado verde, que você ainda se veste de branco.

Queria mesmo entender porque ainda dói. O meu conflito, quero crer, vem de toda essa fantasia, que deveria estar interdita. Você é uma palavra interdita. Você me magoou e foi embora, você. Você me pisa tacitamente nessa guerra fria diária. Você tem me surpreendido com sua nova forma de agir. Eu fecho os olhos, olho nos teus e já não te vejo e eu choro você. Você foi procurar você peças faltantes, enquanto eu fiquei juntando as que me restaram de você. Você tem sido o meu objeto de devaneios literários, onde eu me permito ser, onde eu não me interdito você. E, depois, eu me culpo você por não me sentir o ódio de antes, por olvidar os momentos de amargura extrema e você fazer-me recitar um poema tolo. Nem sei qual seria o seu sorriso de me ver ler e tremer você num poema. Nem sei como fazer você ver que eu li você-poema. Começo a sentir vergonha de fazer você bater, se eu nem sei se bato aí dentro. O amor é proibido e você nem sabe, você, por quê.

sábado, 8 de outubro de 2011

Marcha



Tem me sido uma das dores mais estranhas deitar a cabeça no travesseiro, antes de estar entregue ao sono, e me perguntar por que você me devastou. A ligeireza das imagens me faz conseguir pensar em tudo despropositadamente. Descomedidamente. Eu me via quebrando as formas do sono com a ideia de movimento, rápido e contínuo; eu não dormiria. Não dormiria por dez minutos, após um cansativo dia, tempo esse reservado para agrupar, para fazer tudo voltar à mente e me questionar, sentir a usual dor da cabeça ao travesseiro, rompendo por sobre a beleza de um monte que parecia inquebrantável. Pesado e sofrido. Carinhoso e rude. Afável e voraz. Sensato e insensato.

Entre nós dois anda o mundo, tristinho, esperando por mais uma ironia, de te colocar na minha frente, descomedidamente. Arregalo as pupilas e já nem faço ideia de qual de nós dois anda morto, as mentiras trazidas de pessoas em sofrimento. A hora que ando à toa é quando a cabeça está lá ao travesseiro, desarmado e o coração esboroado; no fundo do poço, ódio e inércia. É como se eu precisasse zerar os pensamentos do dia pra conseguir dormir tranquilo, então fico, por minutos, pensando naquela dor, deixando ela me machucar um pouco mais. Mal tão necessário para uma noite de sono minimamente honesta. É, justamente, naquela hora que ninguém me diz para abstrair, ninguém me aconselha, muito menos segura minha mão. Sou eu ali, lembrando de você, comigo mesmo, memórias frescas permeando uma dor profunda, sentido o gosto das palavras pelo sabor que te dera. Elas não foram amargas só pra você, é tudo que tenho. Eu que seguro a sua mão agora, ora aperto, ora afago.

Quando fecho os olhos, penso no teu rosto, me repito o não mais tantas vezes, mas tenho visto tanta coisa. Agora eu fecho os olhos de saudade, as minhas palavras em riste arrefecem, o meu coração saltita, eu vejo coisas brancas, grama verde. Eu me permito os sonhos claros que invento. O contentamento tem se perdido dentro de mim, é tudo que me permito dizer agora. Sei que o travesseiro encerra algo indescritivelmente permissivo. Ele me permite ser tão bobinho. Eu posso, lá, confessar o meu jeitinho, entregar a alma e deixar os olhos. Quando eu bloqueio essa permissão, me vem a agonia. O sono vem se arrastando pelo chão, a maturidade e a dor vem correndo pra me tirar de lá e mostrar o que realmente é. Consentimento. Eu queria mesmo poder cortar suas asas, te fazer caminhar pelo mesmo caminho que venho andado perdido. Perdido que só eu. Que só. O que eu mais queria era encostar minha testa no teu ombro e deixar as lágrimas caírem de novo. E eu só posso te pedir isso quando deito minha cabeça no travesseiro. Há lágrimas e gritos, e tudo tem mesmo que acabar?




Pequeno

sábado, 30 de julho de 2011

Do peso do mundo.


Disseram-me e eu relutara em acreditar. Avisaram-me e eu debochara. Choraram-me e eu consolara, mesmo sem acreditar. E agora as lágrimas correm loucas, uma atrás da outra, sem a menor compaixão. Correm tentando expurgar o que vai me entorpecer por muito tempo. Sai aquele ar seco, aquele grito surdo, a aflição presa ao meio e as lágrimas, molhando, a pele sem vida alguma. Um retrato que eu não gostaria que ninguém jamais apreciasse, pintado de dor e arrependimento por, um dia, ter conseguido diminuir tal sentimento de um ser que sofria. E a vida me ensinava.

Pois eu gostaria de aprender sozinho, então, agora mesmo, sem que ninguém debochasse da minha dor, sem nenhum ombro. Não queria que ninguém a aumentasse ou o contrário. Deixe-me senti-la como ela se apresenta. Assim, fresca, recente e pungente.

Paro por alguns momentos só para vê-la apertar o peito, fazer doer a cabeça, roer o estômago, secar a boca, avermelhar o nariz e molhar os olhos. Toda a compaixão que um dia neguei veio-me agora completa, ao contrário das lágrimas, a parte de mim impassível, que só caíam, sujavam meus óculos e turvavam-me a vista. Confesso que elas estão bem mais contidas que muitas que já vi, e não foram poucas. Mas elas têm o seu sabor, o seu sabor. O sabor do acúmulo, da inexperiência, do sal. E elas vêm. Muitas, muitas, muitas. Molhando, molhando, molhando. Turvando até o ponto de eu não conseguir escrever.