
Recordo-me agora de como aquela sensação me compensava. Eu já te avistava, puxando a blusa, sempre no mesmo local e as mãos inexplicavelmente trêmulas, para que ela descolasse do corpo, eu sabia bem, típico dos traumas da infância e adolescência, esteio de algo improvável em uma idade mais improvável ainda, era sempre duas puxadinhas, vindo em minha direção, o olhar neurótico em lugar algum. Um andar peculiar, meio cambaleante da vida, havia sofrido demais, engraçado e apressado, seu. Eu dava um sorrisinho só meu, de satisfação, que você nunca chegara a ver. Era o meu dia mais feliz da semana, cansado ou não, era quando as ligações teriam fim e, de fato, outro tipo de ligação se iniciaria; eu teria você comigo. Adentrava, batia a porta forte, como sempre, não me olhava muito. Lugar proibido de carinho, aquele. Parece que toda a nossa relação me passava frente aos olhos naquele seu caminhar em minha direção eu lembrava de todos os seus problemas os nossos seus do quão difícil foi sua vida e você não fazia ideia de que eu tentava entender aquilo converter-me e moldar-me e do medo que me dava por você ter sido tão forte e ter sido tão marcado e eu regozijava por você estar traindo você mesmo ao me amar disso eu nunca tive dúvidas sentado com uma amiga noutro dia comentei da intensidade disso e de como nunca havia faltado durante todo o tempo juntos faltado não mas sobrado sempre transbordado de um jeito ou de outro; amor nunca havia faltado. Colocava a mão esquerda no meu joelho direito, balançava-o levemente, dava aquele apaixonante gritinho solavancado e, logo então, vinha a fatídica pergunta. Você nunca soube do meu caso de amor e ódio com essa pergunta. Em dias, rezava para que você não a fizesse, achava chata, repetitiva. Em outros, ela era você, ela era o seu território, era você avisando que chegou, mais uma vez. As peripécias do cotidiano faziam-me não ser tão regular quanto a sua pergunta já reificada. “E aí, tudo bem com você?”! Ela era invariável. Às vezes, vinha acompanhada de um vocativo, muitos, só você soube me dar os melhores vocativos; os amava tanto que ouvir meu nome sair da sua boca me doía. Eles tornaram-se tão preclaros que os nossos passaram a esquecer nossos nomes comuns e a fazerem uso deles quando queriam nossa atenção. Que prazer isso me dava! Dava-me um beijo no ombro, puxava minha mão, encaixe perfeito do grande e do pequeno, a beijava também, me dando aquela lição de como ser carinhoso de verdade. Só então você colocava o cinto. E você nem imaginava que o seu metodismo um dia me marcaria, direcionamento de todo o sofrimento de uma vida, que chegou a nos fazer discutir tanto, amiúde, eu não conseguia entender que era você tentando apagar as marcas dos períodos difíceis. Comum era estar tocando aquela música, propositadamente, que virou nossa, daquele meu CD repetitivo, da minha banda preferida, sempre ele. Você a reconhecia e já começava a reger, com a mão direita, na melodia perfeita de quem entendia de ritmo, de quem sabia, de verdade, sentir as nuanças de uma música. E a gente cantava junto. Suficiente para chegarmos à esquina.
Muitas perguntas precisam ainda ser feitas.. [continua]
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