
Oi, eu sou Ana Anita e tenho um amor platônico. Eu devo isso ao querido Platão, que viveu na Grécia antiga e teve a felicidade de proferir que o amor espiritual é mais importante que o amor carnal. De acordo com ele, o amor tem uma função de possibilitar um crescimento espiritual por meio de uma relação saudável entre pessoas que têm os mesmos objetivos e projetos. Bem, de acordo com a teoria dele, a visão que se tem, atualmente, de amor platônico é errada. Amor platônico não é aquele em que a relação é totalmente impossível e a outra pessoa não sabe que é amada. O amor platônico, para ele, é a metade da laranja, é a tampa da panela, é a alma-gêmea. Como um conceito pôde tornar-se o oposto do seu signifcado? Acho que foram os anos. É, estamos extremamente distantes da Grécia antiga, e de Platão, assim como um amor platônico é distante de você. Se é por isso ou não, não importa.
Mas e agora? Como vou chamar o meu amor? Acho que prefiro o sentido atual da palavra.
Eu estou apaixonada. Ou melhor, eu amo. Acho que paixão é um sentimento mais carnal, momentâneo, visual. O meu não, é espiritual, é intelectual, é suspirante, é puro. Eu sinto-me devota de um Deus mortal. Eu sou/estou como um vulcão inativo: tem muito a oferecer, mas está sem atividade. Eu não sei se entrarei em erupção, pois isso depende da natureza e não de mim. Bem que eu queria! Mas meu sentimento me completa tanto, é tão bonito, me conforta tanto, é tão puro, me faz tão bem, é tão verdadeiro, que, se ele não me quiser, eu continuarei amando sem sofrer. Não sei se um dia passará. Eu não quero que passe. Eu estou feliz. Eu só quero continuar vivendo e sentido esse sentimento que nasceu dentro de mim. Como é bom morrer de amor e continuar vivendo!
Eu acredito veementemente que as pessoas despertam-se. É, eu olho para você, e, só com isso, você me desperta coisas boas. Eu não sei se eu te desperto algo bom, mas eu nem me importo. O meu sentimento não depende do seu. Eu sou muito individualista. Meu amor é tão lindo que eu não sei se queria dividir ele com você. Se você quer amar, que sinta o seu, pois o meu é meu. Eu sinto-me viva por causa desse amor e não acho justo dividi-lo com ninguém, nem com o amado. Eu não vou viver o seu amor. E, completando, eu duvido muito que alguém venha a sentir um amor que possa, ao menos, assemelhar-se ao meu. É algo tão forte que o meu vocabulário não consegue exprimir em palavras. Mas nem precisa, do jeito que o mundo é cheio de inveja, não preciso de ninguém querendo roubá-lo de mim ou tentando conquistar-me para eu não sentir mais coisas tão perfeitas pelo meu amado.
-Ana Anita, por que você escreve tanto, minha filha?
-Ah, mamãe, eu tento, inutilmente, colocar no papel o que se passa dentro de mim, mas nem consigo.
-Você tá apaixonada, filha?
-Não, mãe.
-Tá triste?
-Não.
-E o que tanto você quer escrever?
-Eu amo, mamãe, eu amo. (pausa de 40 segundos) Você já amou?
-Sim, meu amor, eu amo seu pai, amo você, amo seu irmão.
-Duvido que chegue perto do meu amor pelo meu amado.
-AHAHAHAHA, como você é audaciosa, querida.
-Quer apostar? O mel tão clichê das minhas linhas românticas e avassaladoras jamais expressarão o que é um coração feliz. Eu tenho certeza de que ele está eternizado dentro de mim. É algo que não entra em latência.
-Estou começando a ficar preocupada.
-Preocupar-se com o quê? Triste seria se eu não sentisse amor, se eu fosse vazia. Sinto-me tão completa que, acho eu, que a senhora deveria sentir-se feliz por mim, e torcer para isso nunca passar.
-Mas você não disse que estava eternizado? E por que o medo de que passe?
-Não é medo de o sentimento passar, não é isso. Quando eu digo para torcer para algo não passar, sou eu. Eu não posso passar. Já pensou se eu morro e não sinto mais isso?
É uma pena que o meu sentimento só tenha visto o seu causador apenas uma vez.












